13/08/2012

O pai tirano

Que ninguém se atreva a mexer no que é nosso, no que somos, fomos ou queremos ser! A pátria, a nossa ditosa pátria comporta-se como o pai que não se rala de desancar nos filhos todos os dias, mas ai daquele que se lembrar de ameaçar ou tocar com um dedo que seja num cabelo do nosso menino!...

19/06/2012

A segunda guerra mundial e a empregabilidade das mulheres



O facto de não termos entrado na Segunda Guerra Mundial teve também as suas consequências negativas. As duas guerras mundiais do século XX tiveram repercussões, por exemplo, na empregabilidade das mulheres, que passaram a trabalhar fora do lar por imperativos da economia de guerra. Segundo o historiador Eric Hobsbawm, nascido em 1917 no Egipto mas com nacionalidade britânica, esse trabalho fora do lar terá acontecido temporariamente aquando da Primeira Guerra Mundial e permanentemente aquando da Segunda (Eric Hobsbawm, A Era dos Extremos - história breve do século XX, Lisboa, Editorial Presença, 1996, p. 54). Neste sentido, as mulheres portuguesas teriam de esperar mais tempo, teriam de esperar eventualmente pela guerra colonial para, na década de sessenta, face à mobilização para a frente de guerra nos territórios africanos e também ao aumento acentuado da nossa emigração, avançarem para as fábricas onde o seu trabalho começava a ser necessário. O facto de não termos entrado abertamente no conflito poupou-nos vidas, mas também poupou-nos o viver doutro modo.


14/05/2012

Não havia enredos...


Após a morte de Sidónio Pais, em 14 de dezembro de 1918, foi eleito pelas duas câmaras, Canto e Castro. Tratava-se de um velho monárquico, estranhamente, à frente da república! Caberia a Canto e Castro a seleção do chefe do governo, o que recaiu no «independente» Tamagnini Barbosa. Este escolheu as personalidades que ficariam à frente dos vários ministérios. Estas escolhas não agradaram aos militares. O protesto não podia ser mais explícito: João de Almeida coloca os regimentos de Cavalaria 2 e Artilharia 4 em Monsanto, ameaçando o governo. Isto no exato dia em que o governo tomava posse! Naquela altura a oposição não perdia tempo e quando não se gostava, não se gostava. Não havia enredos…

Regresso

Estava à espera de que acontecesse uma vaga de fundo a reclamar o meu regresso. Afinal, apenas uma vaga de silêncio e de calor amodorrou os dias e a minha vontade de escrever. Àqueles, poucos, que me enviaram mail's reclamando pelo meu regresso, aqui fica o meu agradecimento. É para eles, o meu primeiro post desta nova fase...

02/01/2012

Redefinir a nossa existência

"Os portugueses se atormentam, se perseguem e se matam uns aos outros, por não terem entendido que o Reino tendo feito grandes conquistas, viveu por mais de três séculos do trabalho dos escravos, e que perdidos os escravos era preciso criar uma nova maneira de existência, criando os valores pelo trabalho próprio." (Mousinho da Silveira, 1832)

31/12/2011

Ser radical em tempos de crise

Com votos de um Bom Ano de 2012, deixo-vos aqui as palavras programáticas de Manuel Laranjeira (1877-1912), médico e pensador, natural de Vila da Feira, alma trágica e lucidamente amargurada, que se suicidou com um tiro na cabeça, em 22 de Fevereiro de 1912, seguindo o caminho de Antero, Soares dos Reis, Camilo, Mário Sá-Carneiro, França Borges entre tantos que, na altura, escolheram essa saída. Já na altura, Manuel Laranjeira confessava em carta a Miguel de Unamuno, que em Portugal tudo o que é nobre suicidava-se e tudo o que é canalha triunfava!
"É preciso começar desde o princípio. Desde o princípio. É preciso refazer tudo, refundir a sociedade portuguesa de baixo a cima, incansavelmente, obstinadamente, com o desespero tenaz e glacial de quem se debate contra a morte. A tarefa é árdua, trabalhosa, dolorosa, e demanda rios de energia perseverante. Mas é preciso empreendê-la sob pena de nos vermos morrer ingloriamente, indignamente, relesmente, com o desprezo dos outros - e de nós mesmos." (Manuel Laranjeira, «Pessimismo Nacional», O Norte, 14 de Janeiro de 1908)

Um Bom Ano de 1912, a todos os companheiros da fila dos assim-assim!

29/11/2011

Inabilitados

«Requerem-se montanhas de habilitações e atestados para o exercício da mais ridícula função: nada, absolutamente nada se requer, nem folha corrida, nem exame de instrução primária, para se ser deputado ou ministro.» (Oliveira Martins, in O Repórter, de 19 de janeiro de 1888) 

03/11/2011

O Silva das vacas

Como é usual dizer, reproduzo aqui com a devida vénia, o artigo que o meu colega e amigo João Lourenço me enviou, retirado do «Jornal de Barcelos». O texto é grande, mas imperdível.

Algumas das reminiscências da minha escola primária têm a ver com vacas. Porque a D.ª Albertina, a professora, uma mulher escalavrada e seca, mais mirrada que uva-passa, tinha um inexplicável fascínio por vacas. Primavera e vacas. De forma que, ora mandava fazer redacções sobre a primavera, ora se fixava na temática da vaca. A vaca era, assim, um assunto predilecto e de desenvolvimento obrigatório, o que, pela sua recorrência, se tornava insuportavelmente repetitivo. Um dia, o Zeca da Maria "gorda", farto de escrever que a vaca era um mamífero vertebrado, quadrúpede ruminante e muito amigo do homem a quem ajudava no trabalho e a quem fornecia leite e carne, blá, blá, blá, decidiu, num verdadeiro impulso de rebelião criativa, explicar a coisa de outra forma. E, se bem me lembro ainda, escreveu mais ou menos isto:

"A vaca, tal como alguns homens, tem quatro patas, duas à frente, duas atrás, duas à direita e duas à esquerda. A vaca é um animal cercado de pêlos por todos os lados, ao contrário da península que só não é cercada por um. O rabo da vaca não lhe serve para extrair o leite, mas para enxotar as moscas e espalhar a bosta. Na cabeça, a vaca tem dois cornos pequenos e lá dentro tem mioleira, que o meu pai diz que faz muito bem à inteligência e, por não comer mioleira, é que o padre é burro como um tamanco. Diz o meu pai e eu concordo, porque, na doutrina, me obriga a saber umas merdas de que não percebo nada como as bem-aventuranças. A vaca dá leite por fora e carne por dentro, embora agora as vacas já não façam tanta falta, porque foi descoberto o leite em pó. A vaca é um animal triste todo o ano, excepto no dia em que vai ao boi, disse-me o pai do Valdemar "pauzinho", que é dono do boi onde vão todas as vacas da freguesia. Um dia perguntei ao meu pai o que era isso da vaca ir ao boi e levei logo um estalo no focinho. O meu pai também diz que a mulher do regedor é uma vaca e eu também não entendi. Mas, escarmentado, já nem lhe perguntei se ela também ia ao boi."

Foi assim. Escusado será dizer que a D.ª Albertina, pouco dada a brincadeiras criativas, afinfou no pobre do Zeca um enxerto de porrada a sério. Mas acabou definitivamente com a vaca como tema de redacção. Recordei-me desta história da D.ª Albertina e da vaca do Zeca da Maria "gorda", ao ler que Cavaco Silva, presidente da República desta vacaria indígena, em visita oficial ao Açores, saiu-se a certa altura com esta pérola vacum: "Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante"! Este homem, que se deixou rodear, no governo, pelo que viria a ser a maior corja de gatunos que Portugal politicamente produziu; este homem, inculto e ignorante, cuja cabeça é comparada metaforicamente ao sexo dos anjos; este político manhoso que sentiu necessidade de afirmar publicamente que tem de nascer duas vezes quem seja mais honesto que ele; este "cagarola" que foi humilhado por João Jardim e ficou calado; este homem que, desgraçadamente, foi eleito presidente da República de Portugal, no momento em que a miséria e a fome grassam pelo país, em que o desemprego se torna incontrolável, em que os pobres são miseravelmente espoliados a cada dia que passa, este homem, dizia, não tem mais nada para nos mostrar senão o fascínio pelo "sorriso das vacas", satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante"! Satisfeitíssimas, as vacas?! Logo agora, em tempos de inseminação artificial, em que as desgraçadas já nem sequer dispõem da felicidade de "ir ao boi", ao menos uma vez cada ano!

Noticiava há dias o Expresso que, há mais ou menos um ano e aquando de uma visita a uma exploração agrícola no âmbito do Roteiro da Juventude, Cavaco se confessou "surpreendidíssimo por ver que as vacas, umas atrás das outras, se encostavam ao robô e se sentiam deliciadas enquanto ele, durante seis ou sete minutos, realizava a ordenha"! Como se fosse possível alguma vaca poder sentir-se deliciada ao passar seis ou sete minutos com um robô a espremer-lhe as tetas!! Não sei se o fascínio de Cavaco por vacas terá ou não uma explicação freudiana. É possível. Porque este homem deve julgar-se o capataz de uma imensa vacaria, metáfora de um país chamado Portugal, onde há meia-dúzia de "vacas sagradas", essas sim com direito a atendimento personalizado pelo "boi", enquanto as outras são inexoravelmente "ordenhadas"! Sugadas sem piedade, até que das tetas não escorra mais nada e delas não reste senão peles penduradas, mirradas e sem proveito.

A este "Américo Tomás do século XXI" chamou um dia João Jardim, o "sr. Silva". Depreciativamente, conforme entendimento generalizado. Creio que não. Porque este homem deveria ser simplesmente "o Silva". O Silva das vacas. Presidente da República de Portugal. Desgraçadamente.

Luís Manuel Cunha in «Jornal de Barcelos», 5 de Outubro, 2011.

29/10/2011

Porquinhos e carneiros!

As aventuras do Corpo Expedicionário Português na Flandres foram um contínuo de desgraças, episódios reveladores da falta de planeamento que cedeu face a objectivos políticos imediatos. Em última instância, enviámos homens mal preparados para uma frente de batalha profundamente adversa à nossa experiência e preparação militares, para salvar o regime republicano e o Partido de Afonso Costa. Mal preparados e mal instalados. Ao ponto de, em plena campanha, na Flandres, existirem mais doentes que feridos, predominando as doenças clínicas sobre as doenças de guerra tradicionais. Mas devemos confessar que os nossos aliados ingleses também não ajudaram. Apesar de aliados, nunca deixaram de revelar a habitual animosidade, gabarolice e espírito de superioridade britânicas. Ora acontecia que o nosso fardamento, cinzento ou azulado, não dava uma imagem de grande asseio, ainda para mais quando se lutava invariavelmente em trincheiras lamacentas. Porém, os nossos amigos britânicos brindavam-nos com uma desagradável alcunha e chamavam-nos porkises!  No entanto, quando chegámos ao Inverno, apercebemo-nos que não nos tínhamos preparado convenientemente, mesmo ao nível do fardamento. De qualquer modo, não foi um obstáculo intransponível. Concretizando a nossa costumeira política de desenrasque, foram enviados samarras alentejanas para os nossos soldados. Como essa improvisada farda exibia nas golas pedaços de pele de carneiro, conta-se (André Brun, A Malta das Trincheiras, 1919) que os alemães, que com facilidade nos avistavam das suas trincheiras, ao repararem no nosso original fardamento, se puseram a imitar os balidos do gado ovino. Portanto, os nossos aliados alcunhavam-nos de porcos e os nossos inimigos chamavam-nos carneiros. Era possível escapar a esta zoológica condição?