02/01/2012

Redefinir a nossa existência

"Os portugueses se atormentam, se perseguem e se matam uns aos outros, por não terem entendido que o Reino tendo feito grandes conquistas, viveu por mais de três séculos do trabalho dos escravos, e que perdidos os escravos era preciso criar uma nova maneira de existência, criando os valores pelo trabalho próprio." (Mousinho da Silveira, 1832)

31/12/2011

Ser radical em tempos de crise

Com votos de um Bom Ano de 2012, deixo-vos aqui as palavras programáticas de Manuel Laranjeira (1877-1912), médico e pensador, natural de Vila da Feira, alma trágica e lucidamente amargurada, que se suicidou com um tiro na cabeça, em 22 de Fevereiro de 1912, seguindo o caminho de Antero, Soares dos Reis, Camilo, Mário Sá-Carneiro, França Borges entre tantos que, na altura, escolheram essa saída. Já na altura, Manuel Laranjeira confessava em carta a Miguel de Unamuno, que em Portugal tudo o que é nobre suicidava-se e tudo o que é canalha triunfava!
"É preciso começar desde o princípio. Desde o princípio. É preciso refazer tudo, refundir a sociedade portuguesa de baixo a cima, incansavelmente, obstinadamente, com o desespero tenaz e glacial de quem se debate contra a morte. A tarefa é árdua, trabalhosa, dolorosa, e demanda rios de energia perseverante. Mas é preciso empreendê-la sob pena de nos vermos morrer ingloriamente, indignamente, relesmente, com o desprezo dos outros - e de nós mesmos." (Manuel Laranjeira, «Pessimismo Nacional», O Norte, 14 de Janeiro de 1908)

Um Bom Ano de 1912, a todos os companheiros da fila dos assim-assim!

29/11/2011

Inabilitados

«Requerem-se montanhas de habilitações e atestados para o exercício da mais ridícula função: nada, absolutamente nada se requer, nem folha corrida, nem exame de instrução primária, para se ser deputado ou ministro.» (Oliveira Martins, in O Repórter, de 19 de janeiro de 1888) 

03/11/2011

O Silva das vacas

Como é usual dizer, reproduzo aqui com a devida vénia, o artigo que o meu colega e amigo João Lourenço me enviou, retirado do «Jornal de Barcelos». O texto é grande, mas imperdível.

Algumas das reminiscências da minha escola primária têm a ver com vacas. Porque a D.ª Albertina, a professora, uma mulher escalavrada e seca, mais mirrada que uva-passa, tinha um inexplicável fascínio por vacas. Primavera e vacas. De forma que, ora mandava fazer redacções sobre a primavera, ora se fixava na temática da vaca. A vaca era, assim, um assunto predilecto e de desenvolvimento obrigatório, o que, pela sua recorrência, se tornava insuportavelmente repetitivo. Um dia, o Zeca da Maria "gorda", farto de escrever que a vaca era um mamífero vertebrado, quadrúpede ruminante e muito amigo do homem a quem ajudava no trabalho e a quem fornecia leite e carne, blá, blá, blá, decidiu, num verdadeiro impulso de rebelião criativa, explicar a coisa de outra forma. E, se bem me lembro ainda, escreveu mais ou menos isto:

"A vaca, tal como alguns homens, tem quatro patas, duas à frente, duas atrás, duas à direita e duas à esquerda. A vaca é um animal cercado de pêlos por todos os lados, ao contrário da península que só não é cercada por um. O rabo da vaca não lhe serve para extrair o leite, mas para enxotar as moscas e espalhar a bosta. Na cabeça, a vaca tem dois cornos pequenos e lá dentro tem mioleira, que o meu pai diz que faz muito bem à inteligência e, por não comer mioleira, é que o padre é burro como um tamanco. Diz o meu pai e eu concordo, porque, na doutrina, me obriga a saber umas merdas de que não percebo nada como as bem-aventuranças. A vaca dá leite por fora e carne por dentro, embora agora as vacas já não façam tanta falta, porque foi descoberto o leite em pó. A vaca é um animal triste todo o ano, excepto no dia em que vai ao boi, disse-me o pai do Valdemar "pauzinho", que é dono do boi onde vão todas as vacas da freguesia. Um dia perguntei ao meu pai o que era isso da vaca ir ao boi e levei logo um estalo no focinho. O meu pai também diz que a mulher do regedor é uma vaca e eu também não entendi. Mas, escarmentado, já nem lhe perguntei se ela também ia ao boi."

Foi assim. Escusado será dizer que a D.ª Albertina, pouco dada a brincadeiras criativas, afinfou no pobre do Zeca um enxerto de porrada a sério. Mas acabou definitivamente com a vaca como tema de redacção. Recordei-me desta história da D.ª Albertina e da vaca do Zeca da Maria "gorda", ao ler que Cavaco Silva, presidente da República desta vacaria indígena, em visita oficial ao Açores, saiu-se a certa altura com esta pérola vacum: "Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante"! Este homem, que se deixou rodear, no governo, pelo que viria a ser a maior corja de gatunos que Portugal politicamente produziu; este homem, inculto e ignorante, cuja cabeça é comparada metaforicamente ao sexo dos anjos; este político manhoso que sentiu necessidade de afirmar publicamente que tem de nascer duas vezes quem seja mais honesto que ele; este "cagarola" que foi humilhado por João Jardim e ficou calado; este homem que, desgraçadamente, foi eleito presidente da República de Portugal, no momento em que a miséria e a fome grassam pelo país, em que o desemprego se torna incontrolável, em que os pobres são miseravelmente espoliados a cada dia que passa, este homem, dizia, não tem mais nada para nos mostrar senão o fascínio pelo "sorriso das vacas", satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante"! Satisfeitíssimas, as vacas?! Logo agora, em tempos de inseminação artificial, em que as desgraçadas já nem sequer dispõem da felicidade de "ir ao boi", ao menos uma vez cada ano!

Noticiava há dias o Expresso que, há mais ou menos um ano e aquando de uma visita a uma exploração agrícola no âmbito do Roteiro da Juventude, Cavaco se confessou "surpreendidíssimo por ver que as vacas, umas atrás das outras, se encostavam ao robô e se sentiam deliciadas enquanto ele, durante seis ou sete minutos, realizava a ordenha"! Como se fosse possível alguma vaca poder sentir-se deliciada ao passar seis ou sete minutos com um robô a espremer-lhe as tetas!! Não sei se o fascínio de Cavaco por vacas terá ou não uma explicação freudiana. É possível. Porque este homem deve julgar-se o capataz de uma imensa vacaria, metáfora de um país chamado Portugal, onde há meia-dúzia de "vacas sagradas", essas sim com direito a atendimento personalizado pelo "boi", enquanto as outras são inexoravelmente "ordenhadas"! Sugadas sem piedade, até que das tetas não escorra mais nada e delas não reste senão peles penduradas, mirradas e sem proveito.

A este "Américo Tomás do século XXI" chamou um dia João Jardim, o "sr. Silva". Depreciativamente, conforme entendimento generalizado. Creio que não. Porque este homem deveria ser simplesmente "o Silva". O Silva das vacas. Presidente da República de Portugal. Desgraçadamente.

Luís Manuel Cunha in «Jornal de Barcelos», 5 de Outubro, 2011.

29/10/2011

Porquinhos e carneiros!

As aventuras do Corpo Expedicionário Português na Flandres foram um contínuo de desgraças, episódios reveladores da falta de planeamento que cedeu face a objectivos políticos imediatos. Em última instância, enviámos homens mal preparados para uma frente de batalha profundamente adversa à nossa experiência e preparação militares, para salvar o regime republicano e o Partido de Afonso Costa. Mal preparados e mal instalados. Ao ponto de, em plena campanha, na Flandres, existirem mais doentes que feridos, predominando as doenças clínicas sobre as doenças de guerra tradicionais. Mas devemos confessar que os nossos aliados ingleses também não ajudaram. Apesar de aliados, nunca deixaram de revelar a habitual animosidade, gabarolice e espírito de superioridade britânicas. Ora acontecia que o nosso fardamento, cinzento ou azulado, não dava uma imagem de grande asseio, ainda para mais quando se lutava invariavelmente em trincheiras lamacentas. Porém, os nossos amigos britânicos brindavam-nos com uma desagradável alcunha e chamavam-nos porkises!  No entanto, quando chegámos ao Inverno, apercebemo-nos que não nos tínhamos preparado convenientemente, mesmo ao nível do fardamento. De qualquer modo, não foi um obstáculo intransponível. Concretizando a nossa costumeira política de desenrasque, foram enviados samarras alentejanas para os nossos soldados. Como essa improvisada farda exibia nas golas pedaços de pele de carneiro, conta-se (André Brun, A Malta das Trincheiras, 1919) que os alemães, que com facilidade nos avistavam das suas trincheiras, ao repararem no nosso original fardamento, se puseram a imitar os balidos do gado ovino. Portanto, os nossos aliados alcunhavam-nos de porcos e os nossos inimigos chamavam-nos carneiros. Era possível escapar a esta zoológica condição?

24/10/2011

Lusitana fatalidade

"Portugal está reduzido à falência, acabrunhado sob o peso dum fisco absurdo e mantido numa horrível situação de abandono e de atraso da qual não pôde ainda sair, apesar de todos os esforços e sacrifícios de alguns homens de acção" (Cf. Maria Cândida Proença, D. Manuel II, Lisboa, Círculo de Leitores, 2006, p. 94). Assim pensava, na primeira década do século XX, uma comissão orientada por um sociólogo francês, que veio analisar o país e a questão social, a pedido do nosso último monarca, D. Manuel II. Consegue ver alguma diferença entre os dias de hoje e as conclusões de uma análise feita há cem anos?

18/10/2011

Que grande novidade!

"É de uma grande monotonia a nossa história financeira. Nas suas linhas gerais cifra-se em gastar mais do que se tem, fazer défice e pagar mais tarde com empréstimos." Escreveu Anselmo de Andrade, em 1902, no seu livro Portugal Económico.

12/10/2011

Alternância sem alternativa

A partir de 1851, o sistema político português encontrou uma solução mais ou menos equlibrada de alternância no poder entre dois partidos políticos: o partido Progressista e o partido Regenerador. Essa dança entre as duas formações políticas ficou conhecida como rotativismo. Os dois partidos alternavam no governo, sem grandes diferenciações ideológicas e políticas. Aliás, quando os seus governos caíam, não admitiam uma perda de confiança do eleitorado, mas apenas da Coroa, como se o rei deixasse de gostar deles ou actuasse por mero capricho. O rotativismo, apesar de ter marcado as últimas décadas do século XIX em Portugal, parece ter pegado de estaca no sistema político português. E os últimos anos de governação entre  nós parece ter sido, apesar da alternância, uma forma de rotativismo entre os mesmos de sempre. Augusto Fuschini, que chegou a estar filiado no partido Regenerador e a dirigir, durante um curto período, a pasta da Fazenda, caracterizou assim o rotativismo: "Partidos que se apoiam reciprocamente como dois bêbados, sabendo perfeitamente que a queda de um provocaria a ruína do outro".
Eis, pois, uma original forma de relacionamento: aproximação simulando distância, amor simulando repulsa. Só que no caso português, no original caso português, temos não dois amantes, mas um triângulo amoroso vivendo um eterno idílio.

28/09/2011

Fatal como o destino

"Em 1890, quando D. Carlos iniciou o seu reinado, a dívida externa portuguesa era mais do dobro das dívidas externas da Roménia ou da Grécia..." (Filipe Ribeiro de Meneses, Afonso Costa, Lisboa, Texto Editores, 2010, p. 19)

21/09/2011

Pontaria baixa

Sendo certo que os tempos que se aproximam, de forte contestação social, implicarão a repressão por parte das forças policiais, previsão tão fundamentada que o primeiro-ministro já determinou que o ministério das polícias (Administração Interna) não sofrerá quaisqier cortes orçamentais para fazer face a um mais que provável aumento dos protestos sociais nas ruas, aqui ficam as recomendações do comandante-geral da Guarda Municipal do Porto, Abranches de Queiroz, que, em 1891, aconselhou os seus soldados a esquecerem os tiros para o ar e a usarem de "pontaria baixa", "apontando para o centro do alvo, para não perder munições e ficarem bem evidenciados os resultados da desobediência" (cit. in Diego Palacios Cerezales, Portugal à Coronhada - protesto popular e ordem pública nos séculos XIX e XX, Lisboa Tinta da China, 2011, p. 174). Em tempo de crise, até as balas devem ser bem aproveitadas.

26/08/2011

Quando é as coisas começaram a correr mal entre nós?

F. R. Cowell, na introdução ao seu livro Cicero and the Roman Republic, refere o conselho de Cromwell a ser seguido quando os países caminham mal. Segundo aquele político britânico do século XVII, naquele caso, deveríamos recuar até à época em que tudo corria bem e tentar distinguir o que, subsequentemente, começou a correr mal.
Aplicando ao caso português, até onde deveríamos recuar? Até ao Marquês de Pombal? D. João II? Até Viriato? Antes disso?.... Quando é que as coisas entre nós começaram a correr mal? Alguma vez correram bem? Aceitam-se sugestões, mas não há prémios.

26/07/2011

Carne para canhão

"Tal como os Italianos, os Portugueses tinham sido obrigados a correr para aprenderem a andar ou mesmo a gatinhar. Os seus homens eram usados como carne para canhão em troca do apoio britânico à manutenção do império português em África. Não eram soldados entusiastas." (Norman Stone, Primeira Guerra Mundial, Lisboa, Dom Quixote, 2011, p. 171) 
Enfim, uma verdadeira tragédia exaltada pelos republicanos, que já aí sofriam duma doença tipicamente portuguesa: o copioso optimismo.

28/06/2011

Somos um passado sem glória

Juntando-se a tantos que estiveram em Portugal durante a II Guerra, também Mircea Eliade, eminente historiador das religiões de origem romena, por cá passou e estagiou, enquanto adido de imprensa e depois adido cultural da Embaixada da Roménia. Durante esses anos, de 1941 a 1945, escreveu um diário, que foi agora publicado na Guerra e Paz, Editores, com o título Diário Português. Ao longo das suas quase 300 páginas, acompanhamos a sua estadia angustiada e depressiva, o seu sofrimento com a morte da sua companheira, as suas viagens pelo país, as suas reflexões sobre a situação política internacional, onde revela claramente o seu posicionamento de direita, apavorado com a destruição da civilização latino-cristã diante da ditadura do proletariado (p. 72, entrada de 23 de Setembro de 1942). No entanto, para aqui interessa-nos as suas breves e parcas referências aos portugueses e a Portugal. Basicamente, segundo Mircea Eliade, os portugueses são um povo morno, lamenta a pobreza intelectual da vida lisboeta e, antes de ir embora, faz um negativo balanço dos anos vividos entre nós: teriam sido anos pouco exaltantes, muito próximos duma existência meramente biológica. Tudo se pode resumir, porém, a um lamento clarividente: Portugal parece-lhe um país cada vez mais triste, quase a morrer! Ou, como ele condensa  para o nosso sobressalto: somos um passado sem glória...

17/06/2011

Inveja ou mesquinhez

Leio na espectacular biografia de João Marques Lopes sobre José Saramago (Guerra e Paz, Editores) que, segundo Miguel Sousa Tavares, o êxito de Saramago deveu-se a Pilar e ao PCP. Nem me pergunto sobre a que se deveu o meteórico êxito deste Sousa Tavares nos livros, nem a sua ressabiada presença regular na televisão.