22/05/2010

O arquivo morto

Os portugueses usam uma expressão interessante quando se referem a alguém que, continuando ligado à empresa ou instituição, passou a não exercer nenhuma tarefa, ficando o dia todo quieto a um canto, esquecido. Diz-se, nesse caso, que foi posto na prateleira. Nas escolas, quando algum professor é vítima de doença que o limita no exercício das suas funções, deixa de poder lidar com os alunos. A sua incapacidade faz com que não possa continuar a dar aulas sem, no entanto, passar à situação de aposentação por invalidez. Nestes casos, a direcção da escola costuma retirar-lhe as turmas, embora o que se passa efectivamente é que ele é que foi retirado às turmas. Este professor correria o risco de ir parar à prateleira, não fosse a direcção das escolas ter a luminosa ideia de o colocar na biblioteca da escola. Na grande maioria das escola é esta a solução. O professor está incapacitado, mas como se parte do princípio que ninguém vai à biblioteca e que o professor que aí está fica sossegadinho e apenas se limita a bocejar e a vigiar o voo dos livros, então a biblioteca pode ser esse lugar de exílio. Ora, o recente caso da professora de Mirandela que posou nua para a Playboy tem também algumas parecenças. Com efeito, foram-lhe retiradas as turmas e foi parar à prateleira. Neste caso, esconderam a professora no arquivo municipal, onde não deverá contactar com o público e poderá ganhar alguma alergia na pele, por causa do pó dos canhenhos e das actas nunicipais. Longe da vista, longe da tentação. É essa a função das prateleiras e do arquivo morto: continuando tudo desarrumado, fica tudo arrumadinho.

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